Nunca Salazar Nunca Esteve Tão Na Moda II
E voltei ao meu trabalho de fundo sobre os últimos dias da figura de proa do Estado Novo, e ao mesmo tempo se mostra como no sistema de saúde pouco ou nada mudou e como o poder continua a ter acesso aos melhores médcos enquanto a maralha tem que ir para o hospital civil e é se quer, se não ficar a morrer em casa.
Hoje vos venho falar de um ventilador que veio salvar a vida de Salazar algum tempo depois da mui famosa queda da cadeira e como aquele que foi considerado o melhor português de sempre teve uma protecção como nenhum de nós sonha ter num hospital seja ele privado ou público e algumas intrigas saídas de algum livro de Fleming ou de Le Carré no seu melhor.
O senhor professor de Santa Comba Dão foi internado no hosptal da Cruz Vermelha aos 6 dias de Setembro do ano da Graça de Deus de 1968 onde foi submetido a uma operação de urgência, mas a mui famosa governanta, D. Maria de Jesus Freire, queria a força que o senhor professor fosse para o hospital de Jesus em Lisboa.
Santidades, religiões e fanatismos a parte, a escolha dos médicos em especial pelo chefe da equipa de cirugia, Dr. Vasconcelos Marques, recaiu sobre o hospital da Cruz Vermelha; que na época era "talvez o hospital mais bem apetrechado e onde Vasconcelos Marques operava a sua clínica particular como explicou Maria Cristina Câmara a entrevista ao Expresso (que trasncreverei em breve neste mesmo espaço para encerrar esta série de artigos) que fazia parte da equipa como anestesista.
Ao 9º dia do 9º mês do ano de 1968, dois dias depois da operação, o director clínico à altura do hospital da Cruz Vermelha, Luís Lopes da Costa, faz saber por escrito que a "ala direita do 6º piso (até ao quarto 75) não deverá ser ocupada" e foram reservados seis quartos na totalidade para guardar o lombo do ditador.
Antônio de Oliveira Salazar ficou no quarto 68 e os outros quartos foram entregues a Vasconcelos Marques, Cristina da Câmara, pessoal de enfermagem, sem esquecer a guarda pretoriana do regime, ou seja, uma brigada da PIDE, que tinha o frete de fazer a segurança ao presidente do Conselho.
Como era apanágio foi decretada censura total a imprensa durante o internamento de Salazar, embora a rolha tivesse sido levantada de forma muito ténue quando foi divulgado um comunicado na data da operação, dia 7 de Setembro de 1968 que foi distribuído a comunicação social que dizia o seguinte: "O Presidente do Conselho foi operado esta noite de uma hematoma, sob anestesia loca, encontrando-se bem", comunicado difundido pelas antenas da Emissora Nacional (actual Antena - 1) pela voz do locutor Pedro Moutinho nas notícias das nove da manhã, no entanto o que não se sabe é que o comunicado foi "editado" porque para o presidente da república, almirante Américo Tomás (conhecido pelas alcunhas de "O Padeiro" ou "Corta-Fitas", curiosamente, Cavaco faz o mesmo que Tomás, a diferença é que não é marujo) recebeu a versão completa que trazia escrito "esta madrugada" que alterado para "esta noite"; e por pedido do subsecretário de estado Paulo Rodrgues, quando se falava em "hematoma intracraniano" a segunda palavra foi apagada.
Os boeltins médicos saiam todos os dias, eram secos e breves, mas sempre dando a ideia que a situação ia melhorar, justificada pelas melhorias claras no estado de saúde detectadas em Salazar. Em 15 de Setembro sai aquele que se pensava ser o último boletim clínico porque o senhor presidente do conselho entrou em franca convalescença e regresserá brevemente à sua residência de Lisboa.
Mas a reviravolta para pior na situação de Salazar vinha logo no dia seguinte quando logo na hora do almoço, Salazar sente "um golpe de dor na cabeça" leva a mão direita a cabeça e diz "Estou muito aflito. Ai, meu Jesus!" e fica sem sentidos na poltrona e foi então que acontece o "desastre" para o Estado Novo porque é neste preciso momento que Salazar sofre o acidente vascular cerebral com hemorragia no hemisfério direito e entrou logo em coma.
A situação clínica do professor de Santa Comba não deixava margem para qualquer dúvida, Américo Tomás convoca o Conselho de Estado e toma a decisão mais difícil da sua vida e afasta do poder Salazar e nomeou para presidente do conselho Marcello Caetano que toma a posse do cargo em 27 de Setembro de 1968.
Como Salazar estava em gravíssimo risco de vida, foi entregue aos cuidados da médica Cristina Câmara e a médica que foi anestesista durante a operação era depois a sua médica de cuidados intensivos, responsável pelo problemático e difícil encargo de reanimação e citando a médica "Criei na prática, uma Unidade de Cuidados Intensivos, no quarto do Dr. Salazar".
Mas apesar do hospital da Cruz Vermelha ser muito apetrechado não tinha um ventilador para dar assistência ao "doente especial" do quarto nº 68 e este hospital tratou de encomendar um de propósito através da empresa Alves & Cª (Irmãos) Lda. e a escolha recaiu sobre um ventilador de fabrico sueco, Engström, modelo 200; máquina que trabalhou mais de 31 mil horas, já não está a uso e a última revisão foi feita em 1998.
E até na entrada do aparelho no hospital houve jogo sujo porque a data de registo é um original 1 de Janeiro de 1970 que como se sabe é feriado e nesta data já tinha dado ajuda a Salazar; entermentes, Miguel Brandão Alves, presente gerente da firma, confirma que na empresa que então era gerida pelo pai e pelo avô, que forneceu a dita máquina e também vinha na lista uma cama especial que foi trazida no carro particular do avô de Brandão Alves de França ou Espanha e este ia munido dum documento especial para evitar problemas aduaneiros e a cama custou 47 mil euros pagos pelo ministério da economia, mas não foi possível se saber o preço do ventilador.
No entanto existe "uma Conta de Despesas" do hospital da Cruz Vermelha onde vem mencionada uma despesa feita com a Alves & Cª (Irmãos) cifrada em 170 contos ou 47 mil euros, mas que não menciona em que foram gastos estes mesmos 47 mil euros e como no início da doença de Salazar, foi o ministério da Economia a pagar tudo que depois veio a ser compensado por um subsídio especial do Secretário-Geral da Defesa Nacional, um departamento dependente do ministério da defesa e que acabou por pagar o grosso das despesas de saúde de Salazar.
O arquivo do processo clínico daquele que foi considerado o melhor português de sempre (escolha estranha, mas quando se olha para os resultados eleitorais, deixa-se de se; nesta altur estranhar) conserva ainda muitos boletins médcos desde 18 de Setembro a 6 de Novembro; estes documentos relatavam as flutuações no estado de saúde do símbolo maior e fundador do Estado Novo e em título de exemplo os médicos Dr. Eduardo Coelho, Vasconcelos Marques, Almeda Lima e Miranda Rodrigues davam a certeza: "Acentuaram-se as melhoras do presidente Salazar, que já não está em coma", Mas no dia de Todos-os-Santos houve uma mudança súbita "Agravou-se o estado do presidente Salazar (...) a respiração voltou a ser assistida permanentemente".
E o boletim médico mais extenso data de 4 de Novembro, sete semanas depois do AVC, e que era taxativo no real estado de Salazar: "O período já decorrido após o acidente vascular, sem recuperação apreciável, não permite prever quaisquer melhoras do sistema nervoso"; nesta altura António de Oliveira Salazar já se encontrava semi-paralisado do lado esquerdo sendo considerado na linguagem clínica um grande inválido e lhe é dada alta dia 15 de Dezembro.
E como diz o povo: "Não há fumo sem fogo" e esta alta foi tomada em comum acordo entre a equipa médica e o presidente da república Américo Tomás e citando o médico Dr. Vasconcelos Marques que comunicou a decisão da alta por escrito a direcção clínica do hospital da Cruz Vermelha: "Por decisão de Sua Excelência o Senhor Presidente da República, e de acordo com os Médicos assistentes, o Senhor Presidente Salazar deverá ter alta desta clínica e regressar à residência de S. Bento ainda durante esta semana. Igualmente por decisão de Sua Excelência, o serviço de Enfermagem a prestar a Salazar na sua residência deverá continuar a cargo do mesmo grupo de enfermeiras, devendo o hospital fornecer todo o tipo de material"
Neste espaço temporal, os médicos se passam da mioleira e ficam cada um para seu lado havendo até um processo judicial depois da revolução dos cravos e Vasconcelos Marques decidiu mesmo se afastar do caso, comunicando o facto dia 19 de Dezembro de 1968 e foi acompanhado pelo resto da equipa, mas apesar de ter tido alta dia 15 de Dezembro, Salazar só saiu do hospital dia 5 de Fevereiro de 1969 e faleceu dia 27 de Julho de 1970 no Palácio de S. Bento aos 81 anos.
E apesar deste artigo ser um artigo de fundo não deixa de levantar perguntas: Porque não deram cuidados paliativos a Salazar e o deixaram morrer em paz ? Porque o quiseram manter vivo a força ? Porque o removeram do hospital ? Quem andou a mexer os cordelinhos ?
Como sempre vos peço para ler, comentar e divulgar
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