Esta Dor Como a Compreendo.....
Na edição electrónica de hoje do Público não pude deixar de passar em branco a reportagem/entrevista feita a um médico do IPO do Porto com o seguinte título "Ser médico oncologista, todos os dias, é muito difícil. Se pudesse, fugia" e este título diz tudo num país como Portugal onde todos anos aparecem 37 mil novos casos de cancro em todas idades desde recém nascidos até aos mais idosos.
O Doutor Armando Pinto do IPO do Porto antes de fazer a sua visita aos meus colegas de hospital da cidade Invicta passa pela sala onde brincam acompanhadas pelas mães e educadoras onde estas mesmas crianças e jovens têm os seus braços tenros presos a frascos de soro, depois se desloca para um quarto onde se encontram casos mais graves do que estes que têm a "sorte" de poderem brincar onde se encontram de máscara e com o inevitável frasco de soro e com a cabeça lisa devido a queda de cabelo provocada pela quimioterapia.
O Doutor Armando Pinto já exerce medicina há 30 anos metade dos quais dedicados a oncologia pediátrica onde observa dezenas de crianças todos os dias e só no norte de Portugal se registam 150 novos casos de cancro infantil todos os anos aos quais se têm que juntar os 123 que se detectam na zona sul do país, mas são números médios, não são números certos e precisos e a maior parte destes cancros são leucemias e cancros do sistema nervoso, mas nem tudo é mau porque há uma elevada taxa de sobrevivência pelo menos no caso da leucemia graças a evolução da medicina e das técnicas de diagnóstico que colocaram esta taxa de sobrevivência em 70%.
No entanto meus amigos e minhas amigas não há dor maior ou não deve haver dor maior do que ver uma criança com cancro a lutar pela vida e nós ali a olhar sem poder fazer porra alguma onde não passamos de seres inúteis que não podemos salver aquela pequena vida que mal surgiu no mundo para ver o sol nascer e já está a sofrer e quem entra num serviço de oncologia tenha ou não crianças na sua família fica desfeito, completamente na "merda", feito em cacos e começa-se a questionar a si mesmo e a existência do divino e tanto sofrimento.
Do outro lado da trincheira desta luta titânica, estão os médicos oncologistas, carregadores da esperança para pais e doentes, deuses, santos e anjos; alguns deles pais e mães e que por dentro choram e teme que um dia também estejam naquele lugar, no mesmo lugar daquele pai, daquela mãe da criança que está a ser tratada por aquele médico,
E citando o artigo do diário olisponense:
No IPO do Porto, nos quartos, há bonecos pintados no tecto que brilham no escuro e iluminam a noite dos meninos internados. Ana Carolina, de cinco anos, tem uma cara zangada. Não come, não quer brincar, nem conversar. Só quer sair dali. Mas está presa a uma cadeira de rodas e a um balão de soro. À menina, com elásticos amarelos a apanhar as duas tranças, meias às riscas a balançar, impacientes, numa cadeira de rodas, custa-lhe caminhar.
Diagnóstico: tumor no fígado. Uma dor na zona abdominal que foi aumentando, falta de apetite, prostração. A ecografia feita no hospital de Famalicão dissipou as dúvidas. Já fez quimioterapia, cirurgia. Segue-se mais quimioterapia. O cabelo não lhe caiu.
"Foi em má altura" diz a mãe, à sua beira, grávida de quase cinco meses. Adélia Azevedo, 35 anos, escriturária. Em breve dará de mamar enquanto cuida de Ana Carolina e ainda da filha mais velha, com nove anos.
Ana Carolina quer ir para casa. Tem medo de vomitar, que é o que acontece quando faz tratamento.
São casos assim que todos os dias passam pelas mãos do Doutor Armando Pinto e pelos os outros seus 7 colegas e tal como no IPO de Lisboa o Dr. Pinto assiste a milagres e a tragédias e não há ser humano capaz de resistir a tanta emoção e a tanta dor e este médico vai passar a livro todo o que passa na sua profissão que exige um treino de elite, porque é duma estirpe de médicos muito especial, mas apesar do treino assume que não é de ferro e que leva o que sente para casa e muitas vezes não dorme e o livro que escreveu é este:
Vivências de um médico oncologista pediátrico, edições Afrontamento. Com uma dedicatória: "Às Mães que me deslumbram na minha vida profissional".
Este grande médico admira a luta das mães destes grandes lutadores, no entanto não aceita o sofrimento...
bem a partir daqui o melhor é mesmo citar o artigo dum grande médico:
O médico admira a "capacidade de encaixe e versatilidade que as mães demonstram quando são colocadas perante a doença dos filhos". E conta como é difícil colocar-se no papel de lhes comunicar a notícia de que os filhos estão doentes. Todas as vezes são "tão difíceis como a primeira" que o fez. "Ponho a minha melhor atitude, tento colocar bem a voz com a ideia de transmitir segurança, uso poucas palavras, comunico rapidamente a parte central da má notícia", escreve. "Por exemplo, digo assim pausadamente: Já sabemos qual é a doença, é uma situação grave, não há dúvidas, mas temos tratamentos para fazer" e fico à espera... (...) Aguardo a reacção, exploro a expressão, os gestos, a movimentação dos presentes no consultório". "A luz ao longo do túnel"
"É muito difícil ser, todos os dias, médico oncologista", diz Nuno Gil, oncologista no Hospital da Luz, em Lisboa. Depois de 26 anos de profissão, um dos deveres que mais ansiedade lhe causa é o de dar más notícias. "Custa-me muito. Se pudesse, fugia. Pensei que, com o ganhar da experiência, as coisas se tornariam mais fáceis. Mas não."
Já viu muita coisa. Mas não se conforma com o sofrimento.
"Se a evolução das pessoas não é exactamente a que gostávamos e queríamos, que é o que acontece muitas vezes, para mim, pessoalmente, é uma grande dificuldade."
Todos os dias, alguém espera de Nuno Gil a última palavra para o seu problema. À sua frente está um homem. Ainda não chegou aos 50 anos, tem um tumor no pâncreas, pode não ter mais de dois meses de vida. Vale ou não a pena fazer tratamento?
Apesar de, há tantos anos, lidar tão de perto com a morte, esta não se tornou banal para Nuno Gil. "Quando as coisas nos correm pior do que pensávamos porque não atingimos o objectivo pretendido, para mim, é devastador", diz.
O envolvimento emocional do médico com os seus doentes é fundamental para os acompanhar ao longo da doença, defende. Uma figura pública que morreu recentemente disse dele que o tinha ajudado "mais do que a ver a luz ao fundo do túnel, a vê-la ao longo do túnel".
Na parede do seu consultório, tem quadros afixados pintados por doentes. Uma mulher pediu-lhe que tomasse conta do seu cão antes de morrer. Hoje, faz parte da família do médico composta pela mulher, "responsável pela pessoa que ele é", pelo seu equilíbrio, diz, e pelos filhos.
No hospital, Nuno Gil não se resume a diagnosticar e a receitar. Não reduz a sua actividade às consultas de oncologia a doentes em tratamento ou em vigilância e à assistência aos doentes internados. Escuta-os. Procura "para lá do que a ciência ensina, para lá do que procura medir". Porque, ensina-lhe a experiência, nem tudo a ciência pode prever, explica. Interessa-lhe o "lado humano" da intervenção clínica.
Mas o melhor que ele faz, diz, "não é como médico". Dedica uma parte do seu tempo a acompanhar os doentes nos seus últimos tempos, em suas casas e junto das suas famílias. Uma atitude frequentemente vista com estranheza pelos colegas.
Numa comunicação que apresentou num congresso, contou o caso de um dos doentes que acompanhou, 58 anos, quadro da Administração Pública já aposentado. Há cerca de 6 meses tinha-lhe sido diagnosticado um adenocarcinoma do pulmão, em estado avançado (como são 75% de todos os tumores do pulmão na altura do diagnóstico). Visitou-o nos últimos dias de vida. A condição física do doente alterara-se substancialmente.
O médico que o tratava considerara que não beneficiaria de fazer mais tratamentos oncológicos. Mas Nuno Gil, aconselhou a família sobre a melhor forma de o libertar da dor e lhe dar tranquilidade, para que se sentisse o melhor possível nos últimos dias da sua vida.
"Procurei sensibilizar a família para que continuasse a expressar junto do seu ente querido os mesmos afectos e as mesmas emoções como sempre tinham feito, mesmo sabendo que poderia não haver um retorno em termos de verbalização ou expressão gestual, mas que esses afectos continuariam a ser sentidos pelo doente. E estimulei-os a nunca descurar o contacto físico (carícias, beijos), porventura mais sentidos nesta fase da vida", conta.Médicos têm de chorar
Uma vez, num avião, Nuno Gil cruzou-se com uma psicóloga suíça, no regresso de um congresso europeu em Viena de Áustria. À conversa, durante a viagem, "disse-lhe que os médicos, nalgum ponto da sua actividade, tinham de chorar com os seus doentes". Mas a psicóloga "não concordou nada porque achou que não podemos comprometer-nos emocionalmente com os doentes. E eu não sei se é assim... Porque se hoje se valoriza tanto o quociente emocional, então é porque significa alguma coisa", considera.
Para Nuno Gil, "não podemos só ser testemunhas de que o sofrimento existe". O oncologista acha que "temos de conseguir mitigá-lo, dentro do que é possível. E isso exige compromisso".
É o compromisso que leva Armando Pinto, no IPO do Porto, a "nunca tirar a esperança aos pais de uma criança muito doente". Explicar "o que há para dar, no que é preciso pegar e fazer, como uma tarefa", enumera. Na sua opinião, mais do que pensar na morte "há que estar preocupado com a vida e aproveitá-la o melhor possível". E é a essa luta que se "atira". Mesmo que, por vezes, a perca.
O médico conta a história de Tomás, um menino que ainda não tinha dois anos quando lhe foi diagnosticado um cancro. Fez tratamentos, pareceu recuperar e "o tempo, traiçoeiro, cínico, foi passando".
Cinco anos depois, eis que a doença reaparece: "Estamos mal... Ele está outra vez doente... Temos que avaliar a extensão da doença e vamos tratá-lo, temos medicação para lhe fazer... Vamos em frente, não se desiste..." Balbuciou o doutor metido no papel de valente, com uma firmeza postiça, incapaz, talvez de transmitir aos pais e à criança uma esperança e um optimismo que ele interiormente já não tinha", conta no seu livro. "Vamos lá para cima para fazer um tratamento, depois vais sentir-te melhor, mais forte..." e enquanto dizia isto, sentia um arrepio, um palpitar do coração, uma sensação de descontrolo, de boca seca, de perda, de medo, de revolta, de vergonha, de tudo".
O Tomás morreu naquela tarde. "Não se podia fazer melhor", disse o médico a si próprio.
Anos depois, os pais foram visitá-lo ao hospital. A mãe estava de novo grávida. Na sala de espera outros meninos esperavam também pelo "doutor Armando"
O Doutor Armando Pinto com este doloroso relato me fez logo lembrar outro seu ilustre colega, Doutor Duarte Salgado, meu nuerologista que tmabém trata crianças e quando vêm na quinta feira da pediatria para as consultas externas vem sempre com um ar cansado e doente, como tivesse passado por um funeral ou algo parecido, e ainda se demora um bocado antes de chamar o primeiro doente e como compreendo-lhe a dor...esta dor meus amigos é tão violenta que quando na semana passada o Afonso faleceu eu, no dia em que soube me aguentei sem chorar, cheguei a estar meio cambeleante, até preocupei a minha mãe; mas cheguei ao final do dia e desatei a chorar como tivesse perdido um filho ou algum dos meus sobrinhos porque quando soube foi uma dor tão grande no coração que quando me lembro ainda choro, hoje até no mítico Grande Prémio de Macau na corrida dos WTTC, Tiago Monteiro, o representante português nesta classe do automobilismo dedicou o 3º lugar que teve na primeira corrida ao pequeno grande Afonso e ao seu pai.
Para mim ser utente do IPO é doloroso porque sei o meu destino que é padecer uma vida dolorosa devido a uma doença rara, no entanto sei que tenho um grande médico capaz e bom amigo e ao mesmo tempo tenho crescido como pessoa e dar ainda mais valor ao sofrimento a todos aqueles que lutam para chegar ao dia seguinte e nem queria estar na pele de médicos como o Doutor Armando Pinto ou meu amigo Doutor Duarte Salgado que num dia faz a visita a pediatria fala e brinca com uma certa criança e no dia seguinte esta mesma criança se junta ao coro dos anjos ou se juntou durante a noite enquanto dormia.
E o mesmo se aplica outros ajudantes do IPO que não sendo pessoal de saúde ajudam e muito que são os "médicos" da Operação Nariz Vermelho e que já tenho lido vários artigos e que sentem a mesma dor que estes profissionais de saúde que merecem todos os prémios e todas as estátuas que se possam fazer e mesmo assim não há recomepensa que compense o seu trabalho, a sua luta pelo milagre da cura, a sua dedicação e o seu treino único....
MUITO OBRIGADO A TODOS OS MÉDICOS DOS SERVIÇOS DE ONCOLOGIA E NUNCA DESISTEM DE CURAR
MUITO OBRIGADO DOUTORES PALHAÇOS POR ANIMAREM ESTES PEQUENOS LUTADORES PORQUE APESAR DE PEQUENOS SÃO OS MAIORES SERES DO MUNDO...MELHOR DO UNIVERSO
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